sexta-feira, outubro 28, 2016

Novos Rumos

Há na vida
tantos rumos
que nos cabe atravessar
tantos muros
fora do prumo
que o certo mesmo
é pular
há na vida
tantos sumos
para da vida sugar
tantos gostos, expostos
falta é tempo pra
saborear
E se nos falta a certeza
de como começar
recomeça, a cada instante
nosso desejo de estar
sempre presente
rente
às portas do amar.

terça-feira, agosto 30, 2016

Os pássaros raros no meu jardim!

Hoje acordei e não vi a mariquita de perna clara no quintal. Seria o 50º dia de avistamento da ave que migrou da América do Norte até Balneário Piçarras. Será que foi embora? Foi quando me dei conta que os filhos são como pássaros raros no nosso quintal. A comparação pode não fazer sentido para a maioria das pessoas, mas quem gosta de passarinho e quem compreende a vida além da vida pode entender o que digo.
Quando um passarinho que vem de longe te visita, num momento raro, você se pergunta: Porque ele esteve aqui, justo no meu quintal? Foi acaso? O que Deus quer me dizer? Assim é com os filhos. Quando eles nascem também nos perguntamos porque eles vieram pra mim? O que Deus espera de mim? Porque estes seres estão aqui comigo?
E o pássaro raro no meu quintal me ensinou muitas outras coisas além do conhecimento de seu voo, sua jornada, sua raridade por aqui.  Você sabe que ele está ali, diariamente, pra te encantar. Você se maravilha a cada dia com seus pulinhos, seus pequenos voos, como se movimenta, como se alimenta. Espera todos os dias que ele cresça, que te encante ainda mais. Mas é um misto de alegria e de certa dor. Primeiro, porque ele nem sempre desce na árvore que você quer, que você esperava para tirar a melhor foto. Ele não faz o que você espera. Ele faz o que acha que tem que fazer. E a pontinha de dor bate pela primeira vez. Depois, porque sabe que aquele pássaro que está ali, sob seus olhar, pode não estar amanhã. Ele pode levantar vôo (e vai), o mais alto que puder, e que talvez parta para sua jornada longa e pode demorar para voltar. E você fica feliz porque ele vai levantar voo. Vai conquistar o que espera. Mas, fica triste. Porque no nosso egoísmo, ficamos tristes com a partida dos passarinhos raros no nosso jardim.
Sim, os filhos são passarinhos raros no nosso jardim. Eles voam, e vêm de bem longe para aqui ficar. Deus os confiou a nós para que possamos olhar por eles, alimentar, cuidar do seu caminho, registrar as melhores fotos, mas deixá-los ser livre. Eles são passarinhos raros que vêm de muito longe, do plano espiritual, chegam bem no seu quintal para te alegrar, mas eles vêm com planos, com sonhos, com tempo certo. Por vezes, não adianta querer que fiquem na árvore que você planeja, porque ele quer outras árvores. Qualquer dia, vão levantar voo, o de curta distância para a cidade dos planos, o vôo do amadurecimento, o vôo da liberdade e responsabilidade da idade. Esse é o voo-aprendizado, tanto para o filho-passarinho que voa, quanto para a mãe que fica, aprendendo a cuidar do ninho sem a presença dos filhotes.  O voo maior, claro, é o voo de volta para terra Natal. Esse, esperamos que sempre demore.
Por isso, a mariquita rara que apareceu no meu jardim, quis me ensinar muito. Ensinou-me a aproveitar sua estadia com o olhar de beleza, de agradecimento, de esplendor. Ensinou-me a registrar os melhores momentos em fotos ou vídeos e mesmo na memória dos dias. Me ensinou que a cada dia o dia é único, e se pode ser o último, que seja intenso e renovador. Não dá pra deixar escapar momentos assim.

Acho que a mariquita já partiu para a América no Norte. Esse era seu destino, e espero que não haja novos contratempos no caminho. Mas, se houver, que aproveite para parar e respirar novos ares. A partida dos meus passarinhos está pra chegar também. Aos poucos, eles já dão sinais de que o voo que esperam é alto e libertador. Aprendo a cada dia com as pequenas partidas, para suportar a saudade da longa jornada. É certo que outros passarinhos raros vão aparecer no meu jardim. Mas, esses que aqui estão, que foram confiados a mim, esses são os únicos da espécie. Esses é preciso olhar melhor, ensinar mais, amar mais, ouvir mais, temer menos. Esses são raríssimos, mesmo assim, um dia levantarão voo. E que ele seja do tamanho e da distância que quiserem. Ainda assim, o meu jardim sempre estará aberto para recebê-los!!! 

terça-feira, junho 21, 2016

Dias de junho

Estamos entre santos
Santo Antonio e São João
Pensamo-nos protegidos
Mas não protegemos o irmão

O frio bate na porta
E os casacos sempre à mão
Há quem faça fogueira
Há quem acenda o fogão
Há quem apenas se aqueça
Com  o calor do coração

Há frio que não acaba
Quando não damos o perdão
Então neste mês de festa
Para os santos e os profanos
Façamos um grande pedido
Que o frio seja lá fora
E possamos com roupa enfrentar
Que no coração só o calor da alegria

Para a todos espalhar

segunda-feira, maio 25, 2015

Os devotos, o Divino e eu

As ruas  no entorno da praça da igreja já estavam coloridas e os devotos perfilados nos dois lados da rua para saudar uma das mais tradicionais festas religiosas católicas da região. Era domingo, dia 24 de maio e eu ali, com meus filhos, acompanhando a família, presenciando a tradição de um povo. Em Penha, há 179 anos, os devotos do divino fazem, da peregrinação da bandeira do Divino Espírito Santo e do dia da festa, momentos de bençãos e confraternização. Em meio a tudo, eu, uma praticante do espiritismo, acompanhando tudo, fotografando, cantando o cântico de Ivan Lins eternizados para a festa. Pra mim, nenhuma contradição.
Cresci em meio católico com a família vivendo a tradição açoriana do Divino com todo o fervor e desde cedo, no fundo da alma, percebia as contradições da fé dos outros com a que eu acreditava. Mas, gostava da festa, de ver os imperadores e suas famílias se mobilizando para uma grandiosa festa. A festa sempre foi rica, de quem podia ter dinheiro para bancá-la ou mesmo influência para mobilizar o maior número de pagantes, mas tinha uma certa magia nas visitas às casas, nas cantorias, nos preparativos, no envolvimento comunitário.
No meu Ribeirão da Ilha, a festa foi neste final de semana também. Não pude lá estar, como fazia quando pequena. Acompanhei, porém, a tradição penhense, com suas semelhanças e diferenças. Percebo que, apesar da imensa simbologia da festa, dos inúmeros rituais católicos (que quase sempre me parecem superficiais), não coloquei em cheque minha convicção religiosa por causa disso. O momento é sim, de renovação de fé para muitos. Para mim, idem. E não havia melhor lugar para essa renovação.
A questão é que a renovação da fé, em mim, está no próprio espírito, no que acredito para a evolução de minha alma, em como traço minha vida hoje, e não nos rituais que faço. A festa, porém, encaro como cultura popular, como momento único de presenciar a tradição de um povo se renovando com os jovens, apesar de muitos estarem ali apenas pelos pais. Ainda assim, se estão ali pela união da família, um benefício 'Divino' lhes é concedido, mesmo que não percebam.
E ao observar a festa com um olhar eclético e não submerso na devoção, percebo ainda mais a beleza da festa. Uma beleza que se mostra não no externo, no colorido da festa, na produção das roupas, nas cores das bandeiras, na mesa farta durante o almoço festivo. Uma beleza interior na devoção dos verdadeiros fiéis, naqueles que se emocionam verdadeiramente com a passagem da bandeira em suas casas, que traduzem isso para suas vidas, que guardam pequenas histórias de devoção.
Este ano, nas minhas poucas andanças pela festa, ouvi fiéis emocionados contando toda a alegria que foi ter o privilégio de ser uma das famílias que recepcionaram 'a bandeira'. Em toda a vida, contou uma das foliãs, sua mãe quis ser convidada para receber a bandeira (o sagrado, o divino para os católicos) e morreu não tendo o privilégio. Hoje, a filha recepcionava a bandeira com fé, devoção e homenagem.
Outro folião recordava do momento em que, durante seu ano como imperador, a maior emoção foi quando, durante a procissão festiva, uma revoada de pombos brancos foram soltos e estes, por uma benção do Divino (afirma o folião), percorreram as ruas da procissão, fizeram volta na igreja e partiram para o alto, num voo de volta para outra cidade (um sinal e iluminação para ele).
Ver a emoção nos olhos dessas pessoas ao contarem esses pequenos detalhes assim, cheios de fé e devoção, traz o verdadeiro sentido da festa. Neste momento, não importa o imperador, o ritual, as vestimentas, importa a fé de cada um.
Claro, nem todos encaram a festa com devoção. Para muitos, ainda, é sinal de status, de poder, de fazer parte de um grupo seleto de pessoas (abençoadas e abastadas) pela condição social. Por isso, há alguns anos, a Festa do Divino (não só em Penha, mas em todos os redutos açorianos) tem sido criticada por seus gastos excessivos com a simbologia, mostrando-se um ritual de poder e ostentação. O que, de certa forma, não deixa de ter sua verdade. Há os que estão ali para tudo isso.
 Mas, não são eles que verdadeiramente fazem a tradição se manter. Do que leva a faixa no peito ao que empunha a bandeira, do que carrega apenas um pingente do divino ao que serve e limpa o local do almoço festivo, do que coloca a coroa ao que varre o chão da igreja, do padre que celebra a missa ao fiel que ficou horas em pé, do lado de fora da igreja, rezando e cantando com a mesma empolgação, do folião que doa milhares de reais (que não lhe fazem falta) ao que simplesmente deu alguns reais para o folguedo (que foram suados). TODOS. Todos estes tiveram importante papel na manutenção da tradição. Ainda que achem que estão em patamares diferente, para o 'Divino Espírito Santo' tiveram papéis semelhantes.
Em matéria de fé, o que vale é o que está no coração e não o que sai da boca pra fora, mesmo que a fé também brote em forma de poesia na voz de muitos foliões. Como fazem os que cantam nas festas, como fez Ivan Lins. Pra mim, a canção mais representativa da festa e de uma verdadeira devoção é a "Devotos do Divino". Muitas pessoas hoje cantam a música sem pensar verdadeiramente no que ela significa. E pior, sem fazer  o que ela sugere.
Numa livre interpretação pessoal, segue a música que ecoa no meu coração:
"Os devotos do divino, vão abrir sua morada, para a bandeira do menino ser bem-vinda ser louvada" (abram seus corações para a palavra de Deus ser bem vinda);
"Deus o salve, este devoto, pela esmola em vosso nome, dando água a quem tem sede, dando pão a quem tem fome" (Deus abençoa aquele que tem fé e que mata sede e a fome de quem precisa),
"A bandeira acredita, que a semente seja tanta, que essa mesa seja farta, que essa casa seja santa) (Quem tem fé e planta o bem, terá mesa farta e casa santa);
"Que o perdão seja sagrado, que a fé seja infinita, Que o homem seja livre, que a justiça sobreviva" (essa parte nem precisa de interpretação);
"Assim como os três reis magos, que seguiram a estrela guia, a bandeira segue em frente atrás de melhores dias" (A peregrinação pela fé, ao levar o exemplo de Jesus por onde vamos, deve ser feita da mesma maneira por todos, independente de ser 'rei' ou 'do povo');
"No estandarte vai escrito, que ele voltará de novo, que o rei será bendito, ele nascerá do povo" (a palavra de cristo se renova constantemente, e nasce sempre do povo, do humilde, de quem tem fé e não ostenta).
A Festa do Divino não vai morrer tão cedo, mesmo com o crescimento de outras denominações religiosas, com a intolerância religiosa, com a falta de fé da humanidade. Ela não será, porém, imutável. Sofrerá mudanças aos longos dos tempos, assim como é a vida em sociedade. A fé verdadeira, porém, essa permanecerá. E ainda que eu não seja devota do Divino, há um divino em mim que celebra essa fé, essa emoção, essa palavra bendita, a ação bem feita. Há em mim a sensibilidade pela arte, pela cultura, pela expressão do que ela representa.
E eu lá, escondida atrás da câmera, me senti tão bendita quanto todos. Porque o Divino, pra mim, não está na bandeira (ainda que eu não veja mal algum nas pessoas que acreditam nesse tipo de símbolo), não está na coroa, não está nas vestimentas ou no ritual. A festa do Divino está dentro em cada um de nós, em nossas alegrias renovadas, nas nossas ações santificadas pelos exemplos de Jesus. Está no colorido de nossos sorrisos, na riqueza de nosso gestos, no perdão diário, nos exemplos repassados aos filhos,no olhar o outro com respeito e carinho, com sabedoria e humildade. Salve o divino que existe em nós!

segunda-feira, julho 21, 2014

Choremos!!!

Esta foi a crônica esportiva que publiquei no Jornal do Comércio, um dia antes da final da Copa do Mundo da Fifa no Brasil....se quiserem dar uma espiada!!



Choremos!
Chorar é preciso, diriam alguns. Afinal, o corpo humano produz lágrimas 24 horas por dia. Chorar lubrifica os olhos e, para muitos, lava a alma. Enfim, choramos desde o dia que nascemos. Mas, convenhamos, torcedores de futebol choram ainda mais. É fato! Mas, há choros e choros. Em 1986, chorei porque o Brasil dos craques Zico, Junior, Casagrande, Careca, Branco, Sócrates, Oscar, Falcão, Muller e outros perderam a chance de chegar ao tetracampeonato. Perderam nos pênaltis para a França, na Copa do México. Chorei ainda mais porque a Argentina (sim, já tínhamos os ranços com los hermanos) foi a vencedora da Copa.
Mas, o choro não foi em vão. Com 12 anos, aprendi que há derrotas mais fáceis de engolir que outras. Aprendi que futebol é muito de emoção e pouco de razão para o torcedor. Em campo, porém, o contrário é o que vale. Aprendi a fazer álbuns de figurinhas, a compreender a história futebolística e gostar dela. Aprendi que futebol era também pra meninas, apesar da canela dos meus amigos dizerem o contrário. E continuei torcendo, mas não mais do mesmo jeito. Tivemos derrotas e dois mundiais na bagagem. Os choros nem foram tantos assim.
E sempre gostei de futebol, escolhi o time mais amado e mais odiado do país para torcer: o Flamengo. E convenhamos, chorei mais do que sorri... Enfim, cresci, casei, tive filhos e eles hoje me trazem de volta a alegria do futebol. Jogam, perdem e ganham, mas o choro pela vitória e pela derrota é de outro jeito. Continuo, porém, como qualquer brasileiro torcedor de futebol. Sou um pouco técnico, xingo o juiz, levanto bandeiras. Só não me arrisco mais em ‘bater uma bolinha’, afinal, os anos chegaram, os quilos chegaram, o talento sumiu de vez. Mas, ainda tenho álbuns de figurinhas, e agora temos a Copa no Brasil.
E o choro retornou ao nosso convívio. Temíamos os aeroportos desestruturados, temíamos as obras de infraestrutura, temíamos os black bocs, temíamos um novo “macaranaço” e até temíamos as zebras. Mas, nunca, nunca uma zebra verde-amarela. Um apagão de talento. Alguém até comentou nas redes sociais que o dia 8 de julho pareceu o filme dirigido por Joy Pitka, ‘Space Jam’, onde seres alienígenas retiram os talentos dos principais jogadores da NBA. Sim, eu vi um ‘space jam” em campo. Mas, não vi Pernalonga, Patolino, Gaguinho, Hortelino e Frajola saírem da plateia para nos salvar. Enfim, os jogadores estavam sós. E, do outro lado da televisão, nós, apáticos, indignados pelo 7 a 1 histórico e até agora inacreditável.

Seria pior, pra mim, se eu tivesse apenas aqueles mesmos 12 anos, como meu filho tem hoje. Ele vive o que eu vivi, chora o que chorei em 1986. Por ironia do destino, a Argentina fará a final da Copa no Brasil, amanhã, contra a Alemanha. A mesma final de 1986. Há, porém, uma diferença. Desta vez, torcerei, consciente, para a Argentina ganhar. Para salvar os meus pontos no bolão e também porque aprendi que, pelo menos no futebol, chorar é preciso e faz crescer. Se não é pra ter um fado ou um chorinho brasileiro, que seja um tango bem dançado. Em nome do bom futebol sulamericano, choremos!

sexta-feira, dezembro 27, 2013

Entre risos e lágrimas

Entre risos e lágrimas
Por Dani Garcia


Um calor de quase 40 graus deixa o dia lindo neste pequeno pedaço de terra onde me encontro. Lindo e quente. Quente e temperado de um suor que movimenta as glândulas do corpo. Ficamos um pouco lentos, é bem verdade. Os pássaros pouco circulam, as plantas permanecem inertes, as árvores pouco balançam, apesar do frescor de estar à beira mar, os pensamentos correm lentos.
O suor escorre pela testa a mostrar que meu corpo vive, e naturalmente se encontra com o suor de meus olhos, que me mostram também que minha alma vive. Uma Primavera tardia em meio ao verão, a mostrar que toda a poda é essencial para um novo brotar. Não tenho mais tempo para dormências longas, períodos grandes de retração e tristeza. As folhas choram ao serem cortadas, ainda que de leve. Não há motivo, porém, para murchar.
O sol que derrete é o mesmo que faz crescer. A lágrima que escorre solitária, é a mesma que há pouco fez o coração bater. Enfim, o corpo está vivo, a alma está viva a buscar novos ares, novos rumos, novos desafios. Não é tempo de reclusão. A vida segue, como seguem risos e lágrimas, a depurar o espírito, a mostrar o caminho do meio. Um eterno gotejar de ternura e encantamento.
Pela primeira vez, em um longo período de existência, dessa existência, sou feliz. Não estou, nem me sinto estar, nem vou estar. Sou. Porque me encontro no universo de mim mesma, feliz com o que me tornei. Não é uma obra acabada, é bem verdade. Todo ninho que serve a passarinho novo, sempre tem algo para se modificar, acrescentar o que a tempestade e o vento levaram.  Um constante montar e desmontar, mas com uma disciplina e consciência de estar fazendo o certo.

E assim, entre risos e lágrimas, entre tempestades e bonanças, a vida segue neste canto de país. Neste canto de mim mesma, que tem espaço sempre para novas alegrias. Um banho de mar me chama, refrescante de corpo e alma. Para lavar dores e revigorar energias. O ano nem iniciou ainda. Há muito por fazer e conquistar!!!!

terça-feira, dezembro 24, 2013

Sobre lembranças e saudades - de vivos e vivos

Sobre lembranças e saudades – de vivos e vivos
Por Dani Garcia

O sol atrás do Morro do Ribeirão ainda não nasceu. Eu perto da janela,  vejo e ouço os passarinhos em alvoroço,  a procura de comida para si e os filhotes. Uma brisa sul movimenta as árvores e limpa o tempo. Me obrigo a ficar perto da janela do segundo andar da casa de meu pai, onde durmo, porque é aqui que a internet pega.
Santa internet. Ao mesmo tempo, me conecta com o mundo e me conecta com a natureza lá fora, já que me faz ter uma visão magnífica do Cambirela, onde a moça ainda dorme eterna escondida pela nuvens, e onde os primeiros raios do sol anunciam um dia especial aqui no sul da Ilha de Santa Catarina. É véspera de Natal. Assim como eu, que longe de casa estou para estar em casa, assim também é com os vizinhos, e a maioria das famílias aqui. Chegam de longe para ficaram perto.
As gaivotas sobrevoam o mar para os primeiros movimentos de vai e vem, em busca do pescador solitário e do peixe que sobra. As gralhas, aracuãs, tucanos e saracuras, vez por outra, também cantam para o mar, do alto do morro do Ribeirão. Perto da Pedra Lisa, deve ser possível ter uma visão completa do canto direito do sul da ilha, até a Ilha do Largo e todo o continente sul. Se o dia está bom, se vê até os passantes lá na BR 101, no morro do Cambirela, a migrarem para o Sul.
Eles não sabem, mas Nossa Senhora da Lapa, a igreja claro, guia seus caminhos por todo esse litoral que minha vista alcança. Não preciso ser católica para acreditar. Há mais de dois séculos a igreja está ali, erguida com óleo de baleia, conectada com o mar e com os fiéis a receber orações, pedidos e desejos. Séculos de história e fé devem fazer alguma diferença e o lugar, santo, também nos devolve suas orações.
Ao lado, o cemitério abriga os mortos. Seus corpos - agora úteis apenas aos vermes. Mas suas almas circulam por todo o Ribeirão, por esse nosso imenso e infinito mar de alegrias, dores e esperança. Não há visão mais linda da freguesia do que de lá, no topo do cemitério velho.
Vou olhar a vista, vou olhar os pássaros que no morro se escondem, e me obrigo também a olhar os túmulos. Minha mãe, minha madrinha, meus avós e tios, minha ancestralidade ali reunida em corpo. Nos os vejo lá, é bem verdade, porque há muito acredito que em cemitérios enterramos corpos, e no coração libertamos ainda mais a alma dos entes queridos, que em outro plano ainda vivem. Poderia ter dito que sepultamos no coração as lembranças, mas elas também não são estáticas, estão na boca de todos nós, soltas no ar, e nos corações queridos vagueiam.
Se os sanhaçus, sabiás, canários e rolinhas pousam no quintal a espera de comida, também em nós as lembranças pousam de vez em quando, a pedir alimento. Se somos passarinheiros, já é natural alimentar os pássaros. Precisamos agora é ser passarinheiro da vida. Deixar virem as lembranças vez por outra, alimentá-las, mas sabê-las deixar ir embora, leves, soltas como os pássaros, para que o canto não entristeça ainda mais os corações um dia partidos pela dor, pela ausência, pelo nosso egoísmo.
Tristeza não e possível colar, refazer, não se regenera sozinha no coração. É preciso que uma alegria entre no peito e vá preenchendo os vazios. E quem ama tem sempre vazios a preencher....eles nunca acabam. Como diz Rubem Alves, sabiamente, “A vida precisa de vazios... Bonitas são as pessoas que falam pouco, a essas pessoas é fácil amar. Estão cheias de vazio, e é no vazio da distância que vive a saudade”.
Período de festas de fim de ano é tempo de saudades, de vazios. Um amigo irmão que ao longe vive, mas que apenas podemos senti-lo , um amor que partiu e hoje vive apenas nas lembranças, que vão e vem, soltas, sem matírio ou gaiolas. Um desejo de estar longe, junto a quem queremos bem, ao mesmo tempo que queremos estar perto de quem, também aqui, queremos bem.

 A vida é assim, um vazio entrecortado de preenchimentos. O casal de sabiá já foi embora, deixou o vazio do ninho no quintal a lembrar-nos da liberdade da existência, da magia do preenchimento. Tenho saudade de muitos lugares, pessoas, e coisas. Mais das pessoas. Mas hoje, muito mais do que antes, não é pesar, é contentamento. Uma vida cheia de pessoas, de calor humano, de dores e alegrias, de saudades, é uma vida vivida. Sou passarinho agora. Meu ninho tá pronto, os filhotes crescem e logo já estarão prontos para voar. Meu voo vai recomeçar.

sexta-feira, dezembro 20, 2013

Como a cigarra

Como a cigarra
Por Dani Garcia


É cedo agora, o sol lá fora talvez nem vá aparecer. Não por preguiça, como fazemos nós quando não somos sol, mas para dar vez também à chuva, essencial a nós, às plantas e aos animais. Lá fora, uma cigarra faz seu canto matinal com a chegada do Natal. Um canto alto e forte, depois de um longo período embaixo da terra.
Não por coincidência, mas por necessidade talvez, no computador reproduzo no mesmo instante a canção que adoro de uma poeta argentina, na voz de la negra Mercedes Sosa, “Como la cigarra”. Uma belíssima canção e um tanto quanto inspiradora. A curiosa cigarra impõe seu canto na natureza, como anunciando as boas novas depois um período de união e amor.
Não conhecia a história desse inseto tão comum em nossa região. Nem mesmo tinha visto uma de perto, até esses dias. Foi num passeio matinal, desses que faço quase diariamente no meu quintal, que segui seu canto forte. Parecia estar muito perto, e estava! Pude encontrá-la no tronco de minha jabuticabeira.  Estava ali, parada, impondo seu canto espetacular e quase ensurdecedor. Registrei o momento para mostrar também aos meus filhos. Para que não demorassem tanto tempo para conhecê-la, assim como eu.
Fui agraciada por ver aquela cigarra. Porque, como descobri depois de uma boa pesquisa, cigarras têm seu desenvolvimento completo entre 1 a 17 anos. E nesse período de maturação, ficam enterradas. As adultas, como a que vi, habitam árvores e plantas para alimentar-se. Foi uma surpresa emocionante. Se pequenos seres como a cigarra podem permanecer soterrados em suas ninfas até estarem prontas, maduras para vir à luz, também nós podemos nos desenterrar, renascer de nossos males - que parecem eternos.
 Fiquei ainda mais feliz com o registro por entender que ali, bem na minha frente e sob o foco de minha câmara, estava um ser que poderia ter mais idade que meus filhos. E ainda sim, depois de toda a sábia reclusão que  Deus lhe impôs através da Natureza, ela retorna firme e forte, linda, em busca da vida.
Assim também somos nós. Somos cigarras vez por outra. Nos enterramos por amor, por ódio ou por outros sentimentos, e por vezes achamos que nunca mais vamos recuperar a vida e o fôlego de viver. O que precisamos compreender é que esse período de soterramento e ‘morte’ nos ensina a sermos mais fortes, mais firmes, mais vivos do que nunca. O período pode ser menor ou maior para muitos, mas não virá antes do essencial amadurecimento, sob pena de não termos força nem sabedoria para viver a graça da vida.


O Natal se aproxima aqui no sul do país, trazendo a mensagem de nascimento, renascimento, de união e amor. Um momento que muitos aproveitam para repensar suas vidas, tomar decisões e buscar a luz, assim como a cigarra. Não sei por quanto tempo cada um passou seu período de reclusão, de amadurecimento ao longo de sua breve vida. Sei que somos cigarras vez por outra e, agora, meu tempo é de cantar. 

quarta-feira, dezembro 18, 2013

Sobre filhos e filhotes!

Sobre Filhos e Filhotes
Por Dani Garcia

Era uma manhã amena de fim de Primavera em Balneário Piçarras, uma cidade de pouco menos de 20 mil habitantes no litoral deste imenso Brasil. Pelo meu quintal, dezenas de pássaros comiam, passavam ligeiros ou apenas descansavam nas inúmeras árvores frondosas que mantenho, apesar dos constantes conselhos para cortá-las, afinal , dão muito trabalho com folhas, galhos e um crescimento muito grande.
Olhei pela janela de repente, para escutar mais de perto um piar diferente, vindo da mata ao lado. Costumeiramente, sempre que um som diferente de pássaro entrava pela janela ou mesmo pela porta de casa, a câmera era acionada rapidamente e eu partia para o jardim, ávida por mais registros especiais. Desta vez, olhei primeiro antes de pegar a câmera, e eles estavam lá. Dois jovens sabiás-poca pulavam aqui e ali sobre a grama aparada.
Ao aparecer na janela eles se entreolharam rapidamente, e me olharam ressabiados. Não se moveram, não fizeram sequer um movimento brusco ou um voo impensado. Ficaram ali, com aquele olhar de lado, me observando e esperando por mim. Sabiam os dois voar, podiam ter feito isso, mas se arriscaram a ficar ali, com o coração pulsando forte e desafiando o perigo que eu podia lhes oferecer.  Não vi os sabiás adultos, talvez nem estivessem por perto.
Saí de fininho, peguei a câmera e voltei com ela já preparada para o registro. Olhei de leve na janela. E eles ainda estavam lá, um pouco mais à frente, mas ainda pulando, ciscando algo perdido no jardim. Me olharam, ficaram imóveis por um tempo e voltaram aos afazeres de comuns pássaros ‘adolescentes’.
Ao olhar pela última vez esses dois filhotes, lembrei  dos meus. Não estavam em casa no momento, já sabiam voar para longe para as brincadeiras e passeios de adolescência. Um frio danado me passou pela barriga. Uma dor aguda que só as mães sabem sentir. Percebi que também eles poderiam, muitas vezes, ser os sabiás jovens da vida. Estarem longe de casa, desafiando o perigo sem se importarem com as consequências. E eu, distante, talvez nem soubesse por onde andavam ou voavam. Um necessário livre arbítrio que aprendemos a conferir-lhes com os anos - a duras penas-, mas que não nos cansamos de querer reeditar a nosso gosto.
Lembrei das sábias palavras de Rubem Alves, quando decretou a dor eterna e inevitável das mães. Diz ele que “Amar é ter um pássaro pousado no dedo. Quem tem um pássaro pousado no dedo sabe que, a qualquer momento, ele pode voar”. Amo os pássaros, amos os filhos, e essa liberdade que vem com o amor nos ampara, nos fortalece e nos faz criar raízes profundas e nos causa essa gestação eterna, essa briga interna constante e avassaladora entre o prender e o ensinar a voar.


No momento desse último pensamento, o sol deu um brilho inesperado no quintal, e um pica-pau-do-campo gritou alto, bem abaixo da jabuticabeira. Ficou ali, ciscando e comendo nem sei o quê. Era o chamado da vida para a realidade. Tomei fôlego, dei um suspiro, peguei a câmera e fui registrar o pássaro. Era mais um, das dezenas de registros que já fiz dessa espécie. Mas, não importa! Não era esse pica-pau, não era nesse momento especial, para humanos e aves.

terça-feira, dezembro 17, 2013

Detalhes de uma manhã de Verão

Depois de um longo tempo sem postar textos aqui, vai uma reflexão matinal!!!

Detalhes de uma manhã de Verão
Por Dani Garcia


São seis e trinta da manhã. O dia já clareou. Os poucos carros pela rua revelam que ainda é cedo para acordar. As aulas na escola ao lado já terminaram e aquele vai e vem de crianças, jovens e adultos não vai acontecer hoje. Preparo a mesa para o café, os filhos dormem, dou ração e água para a cachorra e preparo o trato dos passarinhos.
Com uma xícara de café bem quente, pouco leite, nada de açúcar, me sento no banquinho já estrategicamente posicionado nos fundos de casa, com vista para o quintal, e me ponho a observar o vai e vem dos passarinhos. Pousam aqui e ali, num constante movimento atrás do benefício diário da alimentação sem muito esforço.
Alguns sanhaçus, mais ariscos e ressabiados, param em galhos bem acima das primeiras árvores só para me observarem. Será que ela vai se mexer? Será que vai nos apanhar? Que perigos vai nos oferecer? Uma incerteza e um medo que, porém, não tiram a vontade de descer para comer a banana bem postada no comedouro, ou entre os galhos das árvores.
Eles temem, mas descem, na certeza de que o risco compensa o prazer de uma banana madura para alimentar-se e alimentar seus filhotes. E assim fazem, diariamente neste meu pequeno paraíso, os tico-ticos, saís, gaturamos, suiriris, bem-te-vis, sabiás, tiés, vira bostas, aracuãs, saracuras, guaracavas, cambacicas, pardais, rolinhas e ainda uma dezenas de espécies esporádicas.
Amo os pássaros. Não me canso de olhá-los. Em cada joão-de-barro que cisca no quintal uma particularidade, um andar, um canto diferente. À primeira vista, todos parecem iguais. Não são! O beija-flor não para para beber o néctar que coloco diariamente sob a árvore. Num ritmo frenético de bater de asas, se alimenta em movimento mesmo, porque não pode perder tempo para conversar ou posar para fotos. Quisera eu ter uma câmera melhor para capturar e eternizar todos os momentos que os olhos conseguem captar! O cheiro do jasmim-manga se mistura, docemente, com o cheiro do verde da bem cortada grama, exalando um perfume de natureza excepcional.
Já não olho o meu quintal como antes! O garapuvu do terreno ao lado, imponente, sorri para mim do alto do seu esplendor. O pé de cortiça está ali, firme e forte apesar de velho, a abrigar os viajantes dos céus. (E quantas maravilhas ali já pousaram!). A alamanda já colore de amarelo o verde gramado, com seus galhos pendendo de tanto encantar.
As laranjeiras, limoeiros e tangerineiras já se preparam para uma nova safra de delícias. Os pessegueiros, apressados, agora deixam cair os últimos frutos ainda tímidos. O tapicuru atravessa o céu como uma lança, com seu bico fino e comprido a preparar o pouso em um lugar especial.
No fundo do quintal, observo os pés de quaresmeira a colorirem o verde da mata baixa. Enquanto o galo da vizinha, preso e triste, canta a sua música matinal e pesarosa -“tô ferrado...”. O sol ainda tímido, não saiu, dando até um trégua para os que, a pé, vão ao trabalho em busca do sustento. Faz calor nesses dias de dezembro em Balneário Piçarras, neste pedacinho pequeno de terra do Brasil, à beira-mar.
Meu coração bate preocupado, ansioso pelos novos desafios que virão. Mas, ao mesmo tempo, percebo a beleza de experiências que me reservam para o próximo ano. O maior contato com a família querida, os novos desafios da profissão, as coisas do coração. Os desafios da vida em sociedade, com as entidades  carecendo de apoio e braço disposto ao trabalho.
Suspiro fundo e o cheiro da natureza me dá novo ânimo. A andorinha que sobrevoa  me faz querer alçar novos voos também. Mas, como terra que sou, o voo não será alto e rápido demais, porque não posso perder o foco nas raízes da terra. Sim, nas raízes, porque ainda sou humana. Os estudos ajudam na compreensão do alto, na certeza da imortalidade e na necessidade de elevar-se. Mas, é aqui ainda que estão as paixões, o cuidado com os filhos, as necessidades diárias de quem, como eu, ainda tem muito por fazer e resgatar.
As horas passam, a câmera ao lado ficou parada. Sequer uma foto para registrar a manhã. Mas, para quê? Os olhos capturam o meu momento, único e intransferível. A minha visão do meu quintal. Um mergulho em mim mesma. As horas passam e um cantar diferente me chama atenção. A ave está lá, majestosa a cantar no galho bem alto do pé de cortiça.

Retiro tudo o que disse sobre registrar o momento único. Ele é único sim, mas não posso deixar de compartilhar com quem, diferente de mim, não tem esse privilégio de ter a beleza ao seu redor. Levanto tiro a foto, nem sei ainda que espécie é. Pesquisarei! Mas, enfim, olho o relógio e é hora de começar o percurso dos dias. Obrigada, senhor, por mais um dia!

domingo, julho 15, 2012

Lançamento de meu segundo livro infantil "Como Chico Chegou à Lua"


Lancei no  último dia 8 de julho, na Fenapi, meu segundo livro infantil “Como Chico Chegou à Lua”. O livro tem 16 páginas, projeto gráfico do jornalista Luiz Garcia e ilustrações do jovem Guilherme Roemers, de apenas 12 anos, aluno do Centro Educacional Crandon. O livro conta com o apoio cultural do Crandon, Imperador Turismo Hotel, Italian Sorvetes e do empresário e bananicultor Valdir Schappo.

O lançamento aconteceu às 19 horas, no estande da Biblioteca Pública/Secretaria de Turismo e Cultura de Balneário Piçarras, com venda do livro e distribuições de autógrafos e  presença de vários amigos.



A primeira apresentação do projeto aconteceu nesta terceira feira, dia 19 de junho, quando eu e o ilustrador realizamos, no Centro Educacional Crandon, o pré-lançamento do livro com uma conversa com alunos do ensino fundamental  e distribuição de autógrafos. A escolha da escola para o pré-lançamento não foi por acaso. Escolhemos o Crandon porque o ilustrador estuda na escola e o Centro Educacional foi um dos apoiadores culturais para a publicação do livro. 

O livro

Com um enredo simples e cativante e ilustrações primorosas e com muitos detalhes, o livro conta a história do menino Chico, que era muito inteligente e um ‘craque’ na Matemática. Chico se achava o único menino do mundo capaz de descobrir as respostas das mais altas contas de matemática. Ele realmente era muito bom aluno e com doze anos, já havia ganhado muitos prêmios com seu conhecimento. Mas ele não tinha amigos. Por isso, ninguém sabia que Chico tinha um grande desejo secreto. Ele queria ir à Lua. “Nesta aventura especial e espacial, o leitor vai saber como Chico chegou à Lua e ainda conseguiu amigos”.

Escolas da região também poderão solicitar a nossa visita, minha e do ilustrador, para uma conversa com crianças e jovens sobre como é fazer um livro infantil no Brasil, suas curiosidades e dificuldades. O contato é com Dani Garcia, pelo email danig30@gmail.com ou pelo fone (47) 8854-3295.

segunda-feira, abril 16, 2012

O Outono que mora em mim


Vez por outra
Estou outono
Meu corpo se alonga, minhas noites se alongam
Uma hora sorrio, noutras logo pranteio
Meu corpo aquece, mas logo congela.
Sinto o frio chegar mansinho...
E o calor da saudade ainda não me deixou!
O outono que mora em mim
Tem a cara pálida, amarela
De tudo aquilo que ainda não mudei.
O tempo é, porém, de mudança
E em mim o outono também é colheita
Meus frutos começam a madurar
Começo a temer a queda, a partida
Mas um dia meus frutos
voltarão pra minha terra
Como sementes.
Há ainda outros frutos brotando
Há muito o que colher.
Minhas folhas caem, meus cabelos caem
Tudo parece cair em mim...
Mas transição é assim!
Mudanças, andanças
Um outono de fora pra dentro
Uma estação sem fim.

segunda-feira, agosto 22, 2011

Mês do Folclore!! Zé Filé também tem suas aventuras neste mês!



Como é mês o folclore, coloco em primeira mão aqui no blog uma aventura do Ze Filé, o cachorro mais esperto da cidade. Confiram!!!

Zé Filé e o boi de mamão – vol 13
 Por Dani Garcia
1.
Se você já ouviu falar do Zé Filé, sabe bem que muitas crianças e adultos aprenderam alguma lição com suas aventuras. Se não conhece, vai conhecer. Esse cão de rua esperto e aventureiro sempre foi amante da natureza e defensor da reciclagem e adora freqüentar escolas para ensinar as crianças e conseguir umas balinhas.
Mas naquele dia de agosto, o ano nem me lembro qual foi, Zé Filé viveu uma das experiências mais engraçadas de sua vida. E olha que ele enfrentou muitas e muitas aventuras.
2.
As crianças estavam alvoroçadas na escola. Uma movimentação diferente era notada por todos e Zé Filé não podia deixar de conferir o que estava acontecendo. Alguns ônibus chegaram trazendo muitas crianças de outras redondezas para aquela escola, pertinho de onde Zé Filé dormia.
Algumas crianças chegaram com uniformes, outras com algumas fantasias diferentes e coloridas. Zé Filé ficava cada vez mais curioso para saber o que iria acontecer ali. Ele, Pretinho e Marrom, seus irmãos filhotes, não poderiam ficar de fora desta festa já que, com certeza, sobraria alguma guloseima.
3.
Quando o quarto ônibus chegou com os alunos, os três cães decidiram aproveitar a concentração de crianças no portão da escola e deram um jeitinho de entrar rapidamente. Eles sabiam muito bem onde se esconder até que tudo começasse, afinal, não era a primeira vez que burlavam a portaria e entravam para dar uma espiada na escola.
Lá dentro, se meteram no meio da criançada e, por debaixo das cadeiras, conseguiram chegar bem pertinho da quadra, onde todos estavam reunidos. Bem quietos, resolveram esperar para saber o que aquelas crianças estavam fazendo ali.
4.
Não demorou e a música animada começou. As orelhas de Pretinho e Marrom se arrebitaram e a curiosidade ficou ainda maior. Zé Filé nem ficou assim tão interessado, mas permaneceu ali para cuidar dos irmãos, ainda muito levados.
Só que não foi só a música que encantou os dois filhotes. No meio da quadra, alguns personagens começaram a aparecer. Primeiro, um grupo de homens com tambores, violão e pandeiros. Depois, dois ou três casais animados e vestidos com muita cor começaram a dançar, rodando por toda a quadra. Até aí, a criançada apenas aplaudia e os três cães de rua apenas observavam atentos.
5.
O que os três não esperavam era a surpresa que estava por entrar. Primeiro, um bicho esquisito, parecido com um cavalinho, entrou segurado por um menino. Dançou e dançou, pra lá e pra cá. Depois, um macaco, uma onça e dois bonecos gigantes com mãos balançando animavam a criançada. Logo em seguida, uma espécie de boi entrou na brincadeira e também rodopiou pelo salão. Disseram que era o boi de mamão.
Pretinho e Marrom se animaram e foram mais perto da pista, quase participando da brincadeira. Latiam muito, quase compassados com a música. A criançada começou a gozação. Pretinho e Marrom então se empolgavam ainda mais. Zé Filé ficou preocupado, de orelhas em pé, porque sabia que os dois não agüentariam ficar de fora daquele alvoroço.
6.
Dito e feito. Não demorou muito e Pretinho e Marrom foram para o meio da pista, no meio dos animais esquisitos que dançavam na brincadeira. Zé Filé latia para os dois voltarem, mas não teve jeito. A criançada estava numa alegria só e os dançarinos até ficaram contentes com as brincadeiras dos dois filhotes. Zé Filé estava tão compenetrado nos irmãos que não percebeu quando um bicho grande de pano, colorido, bem comprido e de bocas grandes entrou na quadra. Foi a gota d´água.
7.
 O bicho, que uns conheciam como bernunça outros como barão, entrou na brincadeira e com seu grande bocão engoliu os dois filhotes. Zé Filé não conhecia a brincadeira e então não percebeu que era apenas uma boca falsa e que logo os filhotes sairiam do pano. Partiu para cima do boneco e começou a confusão. Os dançarinos puxavam daqui, Zé Filé puxava dali e a criançada até rolava de tanto rir.
Os professores entraram na confusão para tentar agarrar Zé Filé, que estava estragando as fantasias e a brincadeira. A força de Zé Filé foi tanta que parte da bernunça se rasgou e duas ou três crianças saíram de dentro, correndo de medo do cachorro. Nessa hora, Pretinho e Marrom também saíram de dentro da falsa boca do bicho. Pareciam até felizes com a brincadeira.
 8.
Zé Filé latiu para os dois filhotes e os três saíram correndo dali, com os professores e os integrantes do grupo correndo atrás deles. Daquele dia em diante, Zé Filé fez duas promessas para si mesmo. Primeiro, não poderia mais levar Pretinho e Marrom para eventos com muita criança, já que sempre queriam se aparecer. Outra promessa era ficar longe daquele  bicho grande esquisito, que parecia de outro mundo, só dançava, e ainda comia cachorros e criancinhas.

segunda-feira, julho 04, 2011

O passar do tempo



Tem dias que o tempo
Insiste em não passar.
Pelas ruas da aldeia
A vida refaz os percursos
Os rios mudam de curso
Para o sonho eternizar.
E não há razão para correria!
Estamos todos a embarcar
Em comboios, aviões
Em ciclos, caminhões
Vamos em livros, em sonhos.
Nossos passos e encantos
Vamos levando aos prantos
Até o momento de reviver.
Rever os amigos
Rever os antigos
Rever as vidas
Os entrelaços de amor.
O medo de toda a dor
Que podemos rememorar.
Mas assim é a vida
Assim é o tempo de aqui passar.
Que ele passe então mais leve
Pelo menos quando aí estiver
Para que o reencontrar
Se torne um suspiro
Uma alegria, um amor profundo.
E no coração, lá no fundo
Na aldeia de todo mundo
Enfim, eternamente estar.

quinta-feira, abril 07, 2011

Cem razoes para amar



Se eu não tivesse
mais do que cem razões para amar,
amaria sem ter razão
amaria simplesmente por emoção.

Se minhas razões
ficassem sem ter o que falar,
amaria sem pronunciar
amaria só por amar.

Se minha alma de criança
não pudesse mais contemporizar,
amaria sem tempo nem espaço
amaria solta no ar.

Se meu desejo insano
deixasse de se revelar,
amaria sem ter desejos
desejaria não te amar.

Se meu corpo morresse agora
com um grito preso na garganta,
amaria feito criança
alma solta na tua eterna lembrança.